Porque jogar um game? Porque jogar o jogo da empresa?

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Depois de algumas centenas de horas bem investidas jogando Real Racing 3 no iPhone, comecei a refletir sobre games em geral e percebi que há dois conceitos fundamentais envolvidos: Significado e Consequência. O interessante é que a minha experiência profissional indica que os dois conceitos estão presentes também nas empresas. Vou tentar colocar este raciocínio de forma ordenada neste texto.

Antes de entrar no assunto, vamos falar um pouco sobre o Real Racing 3. É um jogo que simula corrida de carros em autódromos reais. Tem pistas como Silverstone, Indianápolis, Spa-Francorchamps, Suzuka, Brands Hatch e Hockenheim. Os carros simulados servem como chamariz e motivação para jogar – é possível montar uma coleção de Vipers, Lamborghinis, Porsches, McLarens etc. Ao progredir no jogo, ganhando corridas, desbloqueia-se novas fases e novos carros, que vão exigindo melhor pilotagem para que se possa continuar a evolução. O jogo implementa o conceito chamado “Time Shifted Multi-player“, que registra as melhores performances de cada jogador em cada pista, e inclui estas performances nas corridas onde outros jogadores participam. O efeito é interessante: você está sempre competindo com outros jogadores reais, mas sem exigir que estejam online ao mesmo tempo que você. O jogo usa isto como um motivador para levar cada jogador a enfrentar seus amigos sempre que algum destes amigos venha a obter performance nova, melhor que a sua. Sempre que algum amigo bate sua performance, uma mensagem é enviada para você, provocando-o para superar o amigo que acabou de derrotá-lo.

É neste contexto que fica evidente o conceito de “significado“. Para mim, aprender o traçado das pistas, melhorar a performance em cada pista por meio de esforço e dedicação, comprar carros mais rápidos e ganhar dos amigos traz uma satisfação pessoal. É um sentimento meio pobre, tirar satisfação de um game, mas pelo menos é bem melhor que acumular fases de Candy Crush :-D.

Por outro lado, o conceito “consequência” é praticamente inexistente num game, exceto pelo tempo perdido e pelo fato de que sua atenção ficou no game e não na família, amigos, lazer etc.

Já nas empresas, a performance do profissional tem consequências importantes, para o bem e para o mal: promoção, bônus ou advertências, demissão etc. Infelizmente na gestão das empresas, o “significado” é mal explorado: o primeiro instinto da maioria dos líderes, especialmente os menos preparados, é usar técnicas de Comando e Controle para garantir resultados. Isto leva a necessidade de apontamento de horas, reuniões “checkpoint”, avaliações Top-down etc. Acredito que a perda de motivação e engajamento seja mais prejudicial que os ganhos gerados pelas técnicas de C&C.

Os novos profissionais que chegam ao mercado de trabalho agora tem provocado estranheza nos profissionais mais experientes. Reclamações frequentes quanto a imediatismo, falta de compromisso com a empresa, individualismo já foram exploradas em inúmeros artigos e até livros. Se pensarmos que estas gerações jogam games desde pequeninos, e que celulares e redes sociais estiveram sempre à sua disposição, fica fácil concluir que a realidade mudou. Os profissionais mais antigos podem reclamar e tentar reagir contra uma situação inevitável – as novas gerações vão estar no comando em pouco tempo, com um estilo gerencial próprio.

O “Jogo da empresa”, constituído pelas regras explicitas e pelas práticas do dia-a-dia, vai evoluir para um estilo alinhado com as novas gerações. Usar os conceitos dos games nas práticas gerenciais parece uma excelente maneira de melhorar o Significado, alinhar as Consequências e criar um “Jogo de empresa” baseado principalmente na motivação intrínseca. O benefício principal seria melhor performance da empresa, com melhor engajamento, menor turn-over e melhor ambiente de trabalho.

Em resumo, um bom Jogo de empresa, tem Significado e Consequência, mas principalmente tem Adesão – é jogado diariamente por todos os profissionais da empresa.